domingo, 17 de outubro de 2010

Da geração 81 sob o signo de aquário

Autoria: Beatriz Provasi
Eu vivo uma geração sem expoentes
Uma geração de estrelas cadentes que sequer se sustentaram no céu para dar-nos suas quedas em espetáculo celestial
Uma geração de trevas ofuscada pelas luzes eletrificadas que explodem retinas
A minha geração ficou no meio do caminho entre a que foi e a que talvez virá – virá?
Nem sexo, drogas e rock’n roll nem açaí com guaraná
Uma geração big mac, fast food, self service, coca diet com entrega a domicílio que cresceu na frente da TV
Eu não sei da internet o tanto que ela sabe de mim nem li tantos livros assim
Vivo entre o passado e o futuro a semente estéril de uma geração imprensada em cima do muro
E eu aqui deslocada sem estourar numa ploc, sem entender nada de rock, achando que a minha vida é um pit stop
Onde é que isso tudo vai parar?
Sei lá, acho que a minha geração perdeu a hora, saca? Tava dormindo e não ouviu o despertador tocar. Acordou meio-dia no meio da vida na casa dos pais achando que viver ou morrer tanto faz.
É uma geração que não dá poema. Não rima nem arrebata. Não ladra nem morde. Jamais daria um uivo. E nem consegue arrancar suspiros ou suspender respirações.
Sendo fruto de uma geração que não representa nada, nem a minha própria geração eu sou capaz de representar.
Eu vivo na contramão de uma geração que não tem fluxo pra lugar algum.
Então, como é que eu posso dar em algum lugar?
Não, meu bem, eu não quero acordar. Me deixe dormir até meio-dia no meio da vida na casa dos pais achando que viver ou morrer tanto faz. Eu desliguei o despertador, então, faça o favor, não me acorde, meu bem. A minha geração dorme de olhos abertos, mas eu, meu bem, eu só quero sonhar. Me deixe sonhar que nesse meio do caminho eu ao menos sou pedra, e não terra pisada como o resto da estrada.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fotos diárias (com disciplina) e stop motion

Nesse post relaciono alguns vídeos com que cruzei no Youtube e que se tornaram conhecidos pelo empenho que exigiram e pelo incrível resultado visual que alcançaram.
Os três primeiros são sequências de fotografias diárias que objetivam ressaltar as modificações no corpo que o tempo impõe.
O último deles é um vídeo em stop motion que tem em comum com os anteriores apenas ser um trabalho de fotografia e o grande número de acessos. Também está aqui pela trilha sonora bem animadinha que adota.
Por fim, gostaria de colocar aqui um criativo clip da música Her Morning Elegance, do cantor, músico e diretor teatral Oren Lavie, que também utiliza recursos de stop motion... mas isso já seria um grande desvio do propósito deste post (mas, se quiser, podes clicar no link que leva à música).
São todos vídeos pops, mas como nunca dá para estar antenado em tudo que acontece na rede, coloco-os em destaque aqui.


Sequência de fotos que mostram a barriga da mamãe crescendo ao longo dos nove meses.





Noah Kalina começou a fotografar-se todos os dias em janeiro de 2000, e continua até hoje! 
Acredito que esse seja o mais conhecido dentre os vídeos com essa mesma proposta, provavelmente devido aos cuidados na pós-produção (por exemplo, com o enquadramento) aliados ao fato se serem apresentados mais de seis anos, ou 2356 dias/fotos. 
É engraçado ver como seu cabelo nunca está igual por dois dias consecutivos, e chocante ver que dez anos a mais podem nos deixar acabadões (como o vídeo "só" vai até 2006, tem que licar no link de "continua até hoje" para ver como ele está). 
Depois desse trabalho surgiram projetos como o Daily Mugshot, que incentiva desocupados pessoas a seguirem os passos de Noah.





Jonathan Keller tem aqui fotografias entre 1998 e 2006, o que torna esse projeto ainda mais antigo que o de Noah, embora, aparentemente, tenha sido divulgado depois. A música (que eu prefiro deixar no mudo) vem num ritmo muito diferente da de Noah, que Jonathan caracteriza como sendo muito sentimental.





Esse aqui é pequenino, "apenas" 200 dias/ fotos. Mas já dá para perceber que ela se produz muito mais que os rapazes.





Mike atravessa os EUA, desde New York, até São Francisco, num projeto de stop motion muito meticuloso, para dizer o mínimo! O diferencial aqui é que cada uma das mais de 2700 fotos foi cuidadosamente planejada, de modo a dar uma percepção de continuidade, desde o andar do modelo, até a posição do Sol. Acredito que quem conhece esses pontos tem muito mais a apreciar (e recordar) que eu, que simplesmente adorei. A propósito, a música se chama Home, de Edward Sharpe and the Magnetic Zero.






quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Quão surpreendente! (poema)


Quão surpreendente foi sonhar
sem dormir,
E perceber que o Sol já coloria as paredes
nos primeiros minutos do dia.

Divagávamos por anedotas da nossa história,
num esforço consciente por nos conhecer.
Queríamos ser íntimos, partilhar nossos
medos, prazeres e recordar melhores momentos.
Queríamos construir novos,
de novo.
Numa história que reciclasse
o que não foi,
para sermos um com o outro.

Dormimos LADOaLADO,
e mesmo estado o real encortinado,
sinto como se nos tenhamos acariciado,
encaixados dentre abraços,
num instinto de zelo
pelos laços que se formavam.

Acordamos e dividimos o pão.
Dei meu queijo, ganhei uma goiabada,
e do pacote de cream-cracker (não comido)
surgiram científicas especulações micro-econômicas
da natureza da bolacha.

Quis ver jatos, marinheiros,
aeronautas e soldados.
E no caminho foi a procurar por
pérgulas, brise-soleils e cobogós
que nos divertimos
... quando o trajeto importa mais
que o destino.

Devassa. Varnhagen. Sub-way. Arteplex...
O "onde" e "o que" já não importavam tanto,
meu "com quem" já era bom o
suficiente.

(Foi intenso) Minha cura.
(Foi rápido) Minha pró-cura.
(Foi verdadeiro) Minha procura.

Desintoxicado, partilhei novamente momentos
com o melhor de mim mesmo,
e tornou-se mais nítido contemplar o nascer
de um "eu" encantado,
Renovado,
Melhorado.